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"Podem chamar-me polémica ou frontal, mas antipática não"
Fadista comemora 25 anos de carreira dia 2 de Dezmebro no Teatro da Trindade com o disco 'Do Primeiro Fado ao Último Tango'
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Miguel Azevedo
30/11/2016 16H32
Foto: Vitor Mota

Que disco é este ‘Do Primeiro Fado ao Último Tango’?
É um disco que traça o meu caminho, o meu percurso, e que contém 40 músicas de doze álbuns.

Como é que se resume um percurso de 25 anos num disco?
Não foi fácil, mas comecei por pensar no que era essencial. Primeiro pensei na minha colaboração com os poetas, algo que sempre foi um ponto de honra para mim e que acho que é a minha impressão digital no fado; depois na colaboração com os cantores--autores como Jorge Palma ou Amélia Muge; e depois naquilo a que chamo os ‘forinhas’, que são músicas que até para mim foram surpreendentes como o ‘Unicórnio Azul’ ou ‘Rosa dos Ventos’. Aqui incluem-se ainda as colaborações com o Iggy Pop ou o Legendary Tigerman, por exemplo.

Os improváveis, portanto!
Ou isso (risos). Eu tenho, aliás, uma secção que se chama ‘sonhos impossíveis’. Alguns consegui realizar, como o disco ‘Canto’ inspirado na música de Carlos Paredes com poemas de Vasco Graça Moura. Há pessoas que cantam poemas dele sem saberem que foram feitos para mim ou que nasceram de conversas nossas.

E como é que vai passar este disco de 40 canções para o palco?
Não vou cantar todas, claro. Vou cantar umas vinte. Vai ser uma festa. Vê--se, aliás, pela capa deste disco que é a primeira em que apareço a sorrir, logo eu, que sou tão introspetiva (risos). A mensagem é: "Olhem para mim toda contentinha destes 25 anos." Quando comecei, não havia internet ou TV por cabo e este disco é a forma de repor coisas que o público não sabe ou não conhece. Hoje, uma fadista espirra em Nova Iorque e toda a gente sabe. Fui a primeira a fazer o Womad, a segunda depois de Amália a ter uma crítica na ‘Billboard’ e a primeira a fazer as filarmonias todas da Alemanha. E ninguém sabe. Mas digo-o sem amarguras, até porque não tenho tempo para isso.

Diz que está "contentinha" com estes 25 anos. Fez tudo o que queria?
Acho que nunca estraguei. Claro que não sou a maior vendedora de discos, nem a que tem mais concertos, mas nunca escorreguei para aquela coisa de fazer um disco de determinada maneira só para o mercado. Muito pelo contrário. Quando o fado estava verdadeiramente na moda, com tudo de bom e de mau, decidi fazer um disco com violoncelos. Nunca estou no sítio que se espera. Nunca entreguei a minha liberdade e a visão que tinha. Posso ter-me enganado, mas dei sempre a minha verdade.

Lembra-se do seu primeiro fado?
Sim. Embora existam musicólogos que digam que sou de fora do fado, durante quatro anos cantei como amadora regularmente numa casa de fados no Porto, chamada Taberna de S. Jorge. Comecei lá aos 16 anos. O primeiro fado que cantei não era um fado tradicional. Era o ‘Sombra’, com letra do David Mourão Ferreira e música do Alain Oulman. O primeiro fado que fizeram para mim foi o Sérgio Godinho e mais tarde o Vitorino. Convoquei aqueles autores de fora do fado, o que me trouxe algumas críticas. Em 1991 já era uma espécie de alien no meio de pessoas bem comportadas (risos).

E recorda-se da primeira vez que escutou um fado?
É difícil. A minha avó e a minha mãe tinham sido artistas e lá em casa ouvia-se Amália Rodrigues, António dos Santos e Maria Teresa Noronha. Mas recordo-me sobretudo de ouvir os primeiros fados de Amália.

Sendo uma amaliana declarada, chegou a privar com Amália?
Falei com ela num encontro no CCB. Fomos apresentadas por um amigo comum que já me tinha confidenciado que um dia a Amália me viu na televisão e que lhe disse: "esta ao menos não imita ninguém." O que é o maior elogio que me podem fazer. Naquela noite disse à Amália que já tinha estado perto dela mas que nunca a tinha cumprimentado por timidez. Ela virou-se para mim e perguntou-me: "por timidez ou por altivez?" E eu, que estava com um leque na mão, comecei a abaná-la e respondi-lhe: "Ó Amália, se eu fosse altiva acha que estava aqui a abaná-la?" (risos). Mas há, de facto, pessoas que acham sou altiva.

Porquê?
Talvez pela cara séria. Às vezes na rua vou muito cismada nas minhas coisas, muito séria, e talvez as pessoas achem que isso é altivez.

Acha que a veem como antipática?
Não, antipática não. Isso não podem dizer de mim. Podem chamar-me frontal ou polémica, mas antipática não. O Fernando Alvim costumava dizer que só não gosta da Mísia quem não a conhece.

A Mísia polémica está arrumada?
A Mísia só se envolveu em polémicas que valiam a pena mas atualmente decidi ocupar-me mais de mim embora continuem a existir injustiças. Há tempos estava programada para atuar no Casino Estoril e fui vetada à última hora. Eu sei porquê. Noutra altura teria escrito para lá, mas agora não.

Sente que existe uma Mísia adorada, sobretudo no estrangeiro, e uma Mísia mal amada em Portugal?
Não. Sinto que há um respeito muito grande por mim no estrangeiro…

… que não há em Portugal?
... mas também há um conhecimento do meu trabalho no estrangeiro que não há em Portugal. Isso acontece com outros artistas e há 25 anos que aprendo a lidar com isso. Mas não me quero queixar. Para o tipo de discos que faço, acho que até tenho muito público em Portugal.

Acha que chegou onde merecia?
Acho que isto não tem a ver com mérito. Faço o melhor possível com as condições que tenho, mas há coisas que não dependem de mim. Não sou eu que faço marketing, não sou dona da editora, nem dos jornais. Não posso viver amargurada por aquilo que não aconteceu. Não gosto desta vitimização dos artistas porque isto passa-se em todas as profissões.

É então uma pessoa realizada e satisfeita com o que conseguiu?
Tenho a sorte de viver disto e acho que não devo queixar-me. Cheguei onde pude. Fiz tudo o que podia, cantei, varri o palco, fiz a bainha do vestido, etc. Há pessoas que vendem mais discos e têm a vida mais facilitada, mas isto é assim mesmo. Há espaço para toda a gente e eu só quero o meu. Não quero o espaço de ninguém.

Ao fim deste tempo todo, já consegue explicar o que é o fado?
Não. É um mistério. Já disse uma vez que é um sofá fantástico para olhar para a vida. O fado é o mais misterioso dos géneros que conheço ,porque acho que chega mais fundo dentro de mim e toca coisas essenciais como a vida e a morte. E é só isso que me interessa no fado.

Como vai a carreira de Mísia na representação?
Vai bem. Em setembro estive em Buenos Aires, onde fiz um monólogo teatral inspirado num texto de Antonio Tabucchi, chamado ‘Carta desde Casa Blanca’, que em breve virá para Portugal. É um texto que fala de um transexual que faz uma operação de mudança de sexo. Fiz dez dias em palco, dirigido por Guillermo Heras, e tive críticas fabulosas. Foi muito intenso. Ver a grande Susana Rinaldi entrar no meu camarim emocionada com as lágrimas nos olhos, foi muito bonito.

Representar é uma experiência muito diferente de cantar?
Sim, sai de outro sítio do corpo. Mas é muito bom para descobrir outras partes de mim.

Mas quando se canta também se representa, ou não?
Sim e não. Acho que a cantar diz-se a verdade com a mentira. Tenho muita tendência para dramatizar e através dessa mentira da encenação dizem-se verdades profundas.

Mas há uma Mísia personagem?
Há uma pessoa de palco mas não sei se há uma personagem. Já está tudo tão misturado. Acho que antes de cantar já tinha uma personagem. Sempre fui uma matriosca, aquela boneca russa que tem várias outras bonecas dentro. O que faço é mimar muito a boneca mais pequenina e nunca me esquecer dela. Se ela desaparece eu sou o quê? Uma cebola sem núcleo? Sou só casca? Se há uma Mísia personagem é só em palco. Fora dele, sou muito terra a terra com toda a gente. Nunca ando de Mísia pela rua (risos). No dia a dia sou a Susana.

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