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"O Chico é o expoente máximo da música brasileira"
'Até Pensei que Fosse Minha' é o titulo do novo disco de António Zambujo. O álbum conta com versões de temas de Chico Buarque
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Miguel Azevedo
16/11/2016 19H00

Pela primeira vez na carreira decidiu fazer um disco exclusivamente de versões. Porquê Chico Buarque?
Porque é uma grande influência para mim e porque é muito provavelmente o expoente máximo da música brasileira. É um dos maiores autores de música cantada em português. O Chico Buarque foi dos primeiros autores de quem eu tive a discografia completa, dele e do Tom Waits. E depois porque a relação pessoal que tenho com ele é muito boa e cresceu muito nos últimos tempos. Acho, aliás, que foi esta aproximação mais pessoal que fez despertar a faisca (risos).

Recorda-se da primeira vez que ouviu Chico Buarque?
Ui! é muito dificil. Deve ter sido algures na adolescência, embora seja provável que eu já tivesse escutado alguma coisa na infância porque os discos mais populares dele eram muito presentes nas famílias portuguesas.

Mas há outros grandes autores brasileiros. O que é que o Chico tem de especial?
Há de facto muitos outros, mas o Chico é o Chico (risos). Curiosamente a minha entrada na música brasileira até se dá pelas canções de João Gilberto e foi por causa dele que eu comecei a procurar outros autores, passando obviamente pelo Tom Jobim e pelo Vinicius que eram os seus parceiros mais diretos, até chegar ao Chico Buarque. Só que para mim o Chico é de todos o que reúne todas as qualidades. Para além de ser um grande letrista, um grande compositor e um grande intérprete é uma pessoa fantástica.

O Chico é o Dylan do Brasil?
(risos). É curiosa essa pergunta porque quando eu soube da notícia do Nobel para o Dylan pensei logo: "Olha podia ter sido o Chico!" A obra dele é mais do que justificativa.

E quando e como é que se dá o seu encontro pessoal com o Chico Buarque?
O meu encontro com ele deu-se há coisa de três anos através do meu empresário lá no Brasil que é amigo pessoal dele. Quando conheci o Chico depressa percebemos que assunto era coisa que não faltava entre nós. Ambos gostamos de estar sentados à mesa a conversar, a falar desde música ao futebol, que é uma coisa que ele também gosta muito. Aliás, ele é benfiquista (risos).

A sério?
Claro (risos). E depois desde que conheço o Chico passou a haver quase um ritual entre nós. O Chico é sempre o primeiro a ligar-me no dia de anos para me dar os parabéns (risos).

E o que é que ele achou deste disco?
Como se pode imaginar, quando decidi fazer um disco de homenagem ao Chico, não contava que ele entrasse nele. Nem sequer alguma vez pensei em convidá-lo. Não achei que ele quisesse ter uma participação ativa. Felizmente o Chico atravessa uma fase mais calma na sua vida e fez questão de estar presente, mais do que eu alguma vez podia supor. Ele quis estar nas gravações, nas sessões de estúdio e cantar uma música comigo. Chegou a fazer pequenas correções às letras e tudo. Foi um bónus.

Uma das pessoas que já elogiou muito este disco foi o Caetano Veloso. Para quem tem passado tanto tempo no Brasil como o António Zambujo, sente que vive em estado de graça por lá?
Não. O Brasil é um continente. São mais de 200 milhões de habitantes e até a própria música popular brasileira nem sequer é uma música mainstream no Brasil. Há de facto um número crescente de brasileiros que gostam daquilo que nós fazemos, mas é sempre um pequeno nicho. A diferença é que um nicho no Brasil é uma coisa completamente diferente de um nicho em Portugal (risos). Isso permitiu-me, por exemplo, fazer no ano passado cinco digressões no Brasil.

Mas sente que há um carinho especial por si, até por parte da classe artistica?
Sim, sinto. E houve uma série de fatores que ajudaram a isso. Recordo-me que a primeira vez que foi editado um disco meu no Brasil e quando nada o fazia prever, de repente tive o Caetano a escrever sobre ele. Claro que tendo o Caetano uma série de seguidores curiosos todos eles acabaram por ir à minha procura. Para ajudar a tudo isto, o primeiro concerto que dei no Brasil foi considerado pelo Globo como um dos dez melhores espetáculos do ano no país.

Mas também sente que o Brasil ainda tem um conhecimento muito limitado em relação à música que se faz em Portugal?
Eu acho que não. Acho que até esta nova vaga de emigração veio dar uma imagem completamente diferente de Portugal. As pessoas que emigraram nos anos 50 e 60 tinham habilitações completamente diferentes das que vão para lá agora. Acho que já nem sequer existe muito aquela coisa de criar comunidades de portugueses. Há uma maior mistura e os tempos são outros. Volto a dizer, o nicho da música portuguesa é cada vez maior. Tem havido parcerias muito interessantes e eu acho que assim é que tem que ser. Tem que haver partilha, não por sermos um pais irmão, porque isso para mim é conversa da treta, mas porque partilharmos a coisa mais importante: a língua.

Já que fala na língua, quem ouve este disco e conhece as canções originais, parece quase que está a ouvir canções novas só pelo facto de estarem gravadas no português de Portugal. Também sentiu isso?
Senti um bocadinho. Houve uma altura na pré-produção em que chegámos a pensar se deveríamos alterar algumas coisas, por causa do 'você' e de alguns tempos verbais como o gerúndio (embora eu como alentejano seja especialista em gerúndios), mas depois achei que não valia a pena estar com essas preocupações. Acabámos por deixar tudo como estava porque afinal era português. 

Fazer um disco de versões, ainda por cima de um grande autor, obriga a uma certa credibilidade ou estatuto por parte de quem o faz. Sente que já tinha créditos suficientes para fazer um disco como este?
Em consciência sim e responsabilidade também a tenho (risos), mas nunca pensei em estatuto. Eu acho que inevitavelmente, mais tarde ou mais cedo, eu teria que passar por este disco.

Mas o António Zambujo hoje é um nome conhecido de toda a gente, quanto mais não seja por causa da loucura que foram os 28 Coliseus com o Miguel Araújo. Hoje qualquer pessoa sabe quem é o António Zambujo!
Olha que tenho algumas dúvidas. Ainda recentemente num parque de estacionamento o segurança virou-se para mim e perguntou-me: "é o senhor Zambujo não é? Então faça favor de entrar senhor Miguel Zambujo" (risos).

Sente que saiu um músico diferente desses coliseus?
Não. As pessoas mudam e vão-se moldando. Não foi o facto específico de ter feito 28 coliseus que mudou alguma coisa em mim. A própria vida em si que é uma aprendizagem constante. E é isso que nos molda.

Vocês têm a noção que continuariam ali nos coliseus?
Sim, acho que sim (risos). Aquilo foi uma loucura. Houve datas que esgotaram em duas horas. Os três concertos que demos recentemente em Beja esgotaram numa hora e pouco. Eu gosto de saborear. Não gosto de procurar explicações.O que é que interessa porque é que aquilo aconteceu? O que interessa é que vivemos aquilo, disfrutámos e agora temos de continuar para a frente.

Quase que arranjavam ali um emprego fixo!
O Miguel chegou a dizer isso uma vez, que parece que tínhamos virado funcionários públicos (risos), isto sem desprimor para os funcionários públicos, até porque os meus pais são os dois trabalhadores do estado. Tínhamos um emprego fixo das 22h00 até à uma da manhã.

Como é que este disco agora vai passar para o palco?
Vamos começar no Brasil em Novembro com digressão em várias cidades. E a par disso vou continuar a fazer concertos da 'Rua da Emenda'. 

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